12/01/2009

Propina Argentina

No único post que fiz comentando a viagem para a Argentina (28/12) falei da propina que nos foi cobrada por guardas rodoviários em rodovias federais daquele país. Vamos ao caso.

Viajávamos a algumas horas no Sucatão quando fomos paradas pelas autoridades federais fardadas da Argentina. Até aí, tudo suave. Começou a demorar. Muito. Com o calor enorme e o ônibus completamente abafado, as pessoas fizeram menção de descer a fim de se refrescarem. Não rolou.

Mas enfim o motorista volta com notícias. Até esse ponto, ninguém sabia o que estava acontecendo. E a bomba:

- É o seguinte, eles não querem liberar no nosso ônibus. Estão exigindo 400 pesos (cerca de 300 reais) para a liberação. Mas eu só tenho 40 pesos.

Ou seja. Para bom entendedor. O ônibus precisava juntar os 400 pesos. Caso contrário o veículo ficaria detido, e os passageiros desabrigados na rodovia.

Alguns quiseram saber qual o motivo de o ônibus precisar ser retido. "Eles inventam qualquer coisa só pra cobrar a propina", explicou o motorista. Deram a (boa) idéia de acionar a embaixada. Mas rapidamente, no meio da discussão, o pessoal começou a juntar a grana, pra ver quanto dava, juntando tudo que (não) tínhamos. Todos haviam gastado tudo, deixado para torrar o que sobrara, na última feira que conheceríamos (feira de San Telmo, tradicionalíssima, que ocorre todos os domingos, no bairro que leva o mesmo nome, bem pertinho de onde nos instalamos), levavam pouco dinheiro. E na verdade era talvez o melhor a fazer, cada um daria quanto pudesse para podermos chegar o mais rápido possível ao nosso País. Era o desejo geral.

Tesoureiro
Como eu estava em pé, começaram a me dar notas e moedas. Confuso, fui juntando e organizando as notas. A Gabriela (acho) (que bateu essas fotos) contou as moedas e mais alguém nos ajudou. Não me recordo agora quanto conseguimos, mas perto dos 250 pesos. Até real tinha no meio. Era como se disséssemos, "toma todo o nosso dinheiro seus porcos filhas da puta".
tudo que arrecadamos, até uma nota de um real tinha

Em caixa.
Contamos tudo e recontamos. Estávamos prestes a entregar o montante, assim que o motorista retornasse. Mas. Para surpresa de todos, o ônibus ligou. E o motorista entrou, disse que os policiais o haviam liberado, pelos únicos 40 pesos que a sua carteira abrigava. Agora, com o ônibus em movimento, o motorista estava no centro, como se fosse o programa Roda Viva. E um grupo de estudantes-jornalistas perguntando. Eu filmava. A Frávia também. Mas o vídeo está em algum lugar no Paraná, ou no pc do Rodolfo Brandão. Tomara. Digam "amém" agora.

Vamos beber esse dinheiro
Depois, redistribuímos o dinheiro de cada, e chingamos os policiais de mierda. Ficamos com a impressão de eles serem ainda mais corruptos que os nossos policiais. Mas pode ser preconceito, impressão equivocada. Fato é que eles abusam dos estrangeiros, sobretudo brasileiros, garantiu-me um dos motoristas, o que negociara com o policial. Disse que isso é bem comum, pois ele faz a viagem há mais de 4 anos. "É uma viagem que ninguém quer fazer, porque às vezes vc toma um prejuízo enorme. Já perdi ônibus que eles apreenderam pois não tinha o montante pedido".

Após a quase-propina, a viagem seguiu quase-tranquila, porque ainda teve um pneu furado. E logo entramos em terras brasilis. Deu uma sensação muito boa, de acolhimento, segurança, de que aquilo que havíamos passado certamente não aconteceria por aqui. Era bom demais estar de volta.

Na primeira parada num posto em Foz do Iguaçu, um colega que estava no outro ônibus contou que o veículo deles não escapou. "Juntamos uma grana, tipo 350 pesos pra dar aos guardas. Por isso saímos bem antes de vcs".

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Na estrada.
E é bom partir também. Hoje embarco até Corumbá-MS, perto da fronteira com a Bolívia, de onde eu e o Kdu viajaremos rumo ao Peru. Será a realização de dois sonhos: fazer um mochilão por terra conhecendo vários lugares e viajar no trem da morte.

*Se o Estado não tivessem sucateado as ferrovias brasileiras, a viagem de Bauru a Corumbá e outras cidades poderia ser feito completamente de trem. Mas as ferrovias e os trens de passageiros da cidade e da região foram sucateados e estão desativados desde o fim dos anos 90. É uma perda de dinheiro público, e uma alternativa "limpa" que perdemos, literalmente. Traduzem isso como responsabilidade, entre outros, da máfia do asfalto, que teria "incentivado" tal sucateamento. Agora, tudo que temos (pelo menos em Bauru), além de apenas trens de carga é um museu. Meus parabéns aos responsáveis.

Um comentário:

Janaina Fainer disse...

e eita museuzinho ruim!