27/11/2007

Londrina é Rock ´n Roll !


Rolou no fim de semana do feriadão da República a edição 2007 do
Festival Demo Sul. É um festival de música que acontece todo ano (desde 2001) na terceira maior cidade da região Sul do país: Londrina, localizada no norte do PR.

Ano passado passaram pelo palco do festival 25 bandas, entre elas uma da
Argentina e as conhecidas (ou não) Forgotten Boys, Rogério Skylab, Macaco Bong, Superguidis, Bidê ou Balde ...

_A Demo Sul 2007

Diz a Rolling Stone Brasil que a Demo Sul é o maior evento de rock independente do interior do país (realizado fora de uma capital). Além disso esse ano fritariam no palco da chácara Lima (entre os dias 16, 17 e 18) as bandas Ludov, Edgar Scandurra A.k.a Benzina (o projeto solo do guitarrista do Ira!, que aliás por hora desfez-se, pois o Nasi saiu da banda, com isso a banda paulista atende agora pelo nome de "Trio"), além de Matanza, Vanguart, Los Porongas (lá do Acre!) e outras. No total foram 26 bandas. De passagem pela metrópole Jataizinho (tipo 30 Km de Londrina) fui dar um rolé nos shows ...

_Sexta - feira: primeiro dia: Rock eletrônico?

E lá fomos nós chegar antes de todo mundo na tal chácara Lima (12 Km do centro da cidade). "Lima" deve ser por causa da "estrada do limoeiro" - trecho que nos leva até o local. Sete e pouco da noite, o carro já estacionado. Os 100 primeiros não pagariam os 5 contos do estacionamento de terra. Gracias. Mas não precisava chegar tão cedo. Nem os seguranças estavam a postos. Nem som não rolava dentro da chácara. Exageramos. Confundimos o horário, o festival começava as 19:45h.
Aí, o jeito foi "esquentar" no interior do carro ouvindo som de fita. Éééé, de fita K-7. Vodka de 5 conto + Coca pra acompanhar.

Enfim entramos, meio bêbados. Nas redondezas da chácara (nem era tão grande), o lugar ficou bacana: banheiro ecológico, tenda branca na frente do palco; do lado oposto um dj tocando rock, piscina (que ninguém ousou pular), graminhas, luzes vermelhas mirando nas árvores, cerva barata (Sol) a dois contos, um clima firmeza. E sem aquele lance de festival grande, de mainstream. É tipo festa em chácara, bem do interior. Muito bacana.

_As bandas
Começou praticamente no horário. Os paranaenses do The Wind abriram o evento. Um trio que tem algumas músicas, rocks legais. Só.
Na sequência, The New Ones descarregaram todo o seu hard core (?), em músicas rápidas e em alguns momentos "pegados".

Zombeteiros: o show é bem "rockeiro"

Espíritos Zombeteiros deram um grau. Fizeram um showzasso, variando composições e bons riffs, instrumental trabalhado e com muito peso - característica da banda. Os caras já são de uma cena antiga de Londrina. Agradou bastante.


Depois, o tom mudou. Camisas xadrez, chapéu de palha e calças jeans deram o tom caipira do Charme Chulo (foto). É naquele naipe de "rock rural", com canções "astral". Destaque pro violinista Leando Delmonico (de rosa), que tocou guitarra, violão, viola e outros intrumentos que não faço idéia. Entusiasmou a galera.

Bom, até aí só "pé vermelho". Então colocou os mano de Brasília, o Super Galo. Formado pelo ex-vocal da extinta Rumbora (das boas "Chapirous" , "ó do borogodó") e pelo ex-batera do Raimundos, o Fred. Eu já os havia visto no Porão do Rock deste ano e a impressão foi a mesma: ridículo. Mas o refrão de uma das músicas do Super Galo era o melhor: "Bombando, bombando em Bagdá!". Rachei.

Na sequência, os Droogies apareceram direto do filme de S. Kubrick. Os caras estão entre o tosco e o bom e se apresentam devidamente "figurinizados". Sorte das meninas que ganham chapéus igual aquele do personagem de Laranja Mecânica, o Alex. A maioria deles canta (bem). Mas, achei a banda bem mediana. Minha amiga comentou que falta "estrada". Concordei.

Depois disso esquentou de vez, ainda bem, porque o frio bateu. Nessas havia perdido a conta das latas ingeridas. Começava a ficar com frio. Realmente, lembrando do semblante das pessoas ao chegar da madrugada, ventou pra caralho.

Trilobit era a bola da vez. Fizeram um puuuta show, para minha surpresa. Pois melhoraram demais de quando os vi pela primeira vez, abrindo para o Autoramas. A banda soa original, com sampleres por vezes engraçados, por vezes criativos antes do início das músicas. O som é pesado, bem construído, empolgante e com pitadas de sons magnéticos e eletrônicos, o que dá um caráter "moderno" ao quinteto. Tudo isso com macacões verdes e um macaco doutro mundo sobre o palco. Fodido.

Demorou, mas logo apareceu a sensação indie (?), direto de Cuiabá para Londrina: o Vanguart. A banda é assim: pegue um vocalista talentoso, que saiba fazer boas letras, junte caras que gostam de tocar e aproveitam pra fazer algumas canções meio "fora do padrão". Alie uma pegada folk e pronto, tem-se aí outro destaque da Demo Sul 07. Eu nunca tinha ouvido nada além de "Semáforo", o hit da banda. E talvez por isso tenha achado a apresentação notável, sobretudo pelo talento de Hélio Flanders, seu violão e seu casaco. Showzasso, daqueles que não se tira o olho do palco.

O melhor show do festival
Passadas das 2 e meia da matina veio aquele que seria o melhor show da Demo Sul 07 (ouso dizer, ainda que não tenha visto as apresentações de domingo): Edgard Scandurra e o projeto Dj Benzina - no qual o guitar hero brasuca é acompanhado por Michelle Abu na batera (incomum) e percussão, além de Sandra Coutinho (a mina - estilosíssima - tem outra banda com o Edgard: Mercenárias!), no baixo.
O cara botou os rockeiros todos pra dançar. Esbanjou categoria. Não é à toa que muita gente o considera como o melhor guitar do Brasil. Um duelo entre ele e o Lúcio Maia (da Nação Zumbi) seria interessante.

Ele destilou efeitos sonoros no seu aparelho high tech de DJ, na guitarra e num microfone especial, que cria uma voz robótica muito loca. Do chão não passaríamos. Nem precisava. Mas o fato é que Scandurra tocou um tempão (em termos de festival com 7 bandas), com solos e combinações empolgantes, explosões e discotecagens, num mix que colocou a poeira vermelha da chácara pra cima, fácil.
Depois explicou a façanha: "Elvis, eu estava lá; Dj Mau mau, eu estava lá, movimento punk de SP, eu estava lá..." (no clipe, o som é melhor que a imagem) e citou outras influências, por meio da metáfora, que é também uma faixa do último disco do trio beleza: Amor Incondicional. Parecia coisa de new rave, só faltaram os bastões coloridos!

No fim, com a platéria eufórica, Scandurra traduziu o nosso pensamento: "onde é que essa festa continua?". Na mosca. Depois daquela apresentação, pra casa não dava pra ir. Tinha o sábado pela frente e uma enorme ressaca também. Mas, essa, já é outra estória...
----

PS. Impossível achar fotos do projeto Benzina na internet. Nem da Demo Sul, isso porque tinham várias pessoas brincando de tirar fotos por lá.

26/11/2007

Assunto 1: Nem nas canelas.

O On the Rock (que tive a honra de criar) hoje estás nas mãos do Gustavo (Bafo), Felipe (Oasis) e Thiago (Lorena), os meninos que comandam o cultural Taxi Virtual, que, inclusive virou um fanzine!
O programa está muito melhor do que quando era comandado por mim, pelo outro Thiago, o Brigadeiro e pelo Ângelo (o Coca ou Shun para outros). Não chego nem nas canelas dos manos.

A primeira música dessa edição aí do On the Rock é The Jimmy Chamberlin Complex, primeiro disco do projeto paralelo do ex-batera do Smashing Pumpkins. Sonzera.

Assunto 2: E o mensalinho, vai aí?

De pato pra ganso. No fim da semana passada comentei no ótimo blogue da Lucia Hippolito que havia notado o sumiço na mídia do caso o Mensalão Mineiro, que em 98 angariou fundos (desviados, entre outros, de estatais) pra campanha do PSDB a governo do estado de MG.
Na época houve tremendo esforço (inclusive do PT que tem políticos envolvidos em repasses de verbas) para que não se criasse uma CPI exclusiva para o caso.

Lá no blogue da Lucia tem os nomes da figuras envolvidas, nas palavras dela:

Segundo a denúncia do procurador-geral, Walfrido dos Mares Guia, Eduardo Azeredo, Clésio Andrade, Cláudio Mourão, Marcos Valério, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach são acusados de peculato e lavagem de dinheiro.

É coisa grande.

O procurador-geral é o Joaquim Barbosa, o mesmo juiz do Mensalão do PT.

Assunto 3: Pra se divertir com um frango.


Isso aí é a melhor descoberta dos últimos 3 anos. Trata-se de uma campanha publicitária de enorme sucesso da marca Burguer King.
Clicando no site vc pode interagir com esse frango aí acima. É só digitar (em inglês) alguma ação (jump, run, dance, citando exemplos comuns) que o frango irá obedecê-lo. Mas não tente sacaniá-lo. Se digitar uma ação considerada imprópria o frango vai te.... vai lá ver!

Foi dica da Andréa, que já demorou pra criar um blogue.

Ótima semana!

21/11/2007

A gente só gosta de notícias ruins.

Assunto 1: Jornal Contexto pras meninas.

As moçoilas Cris e Maga irão receber daqui alguns dias uma edição de LUXO em suas casas. Elas pediram aqui (post de 04-10) e finalmente tive a vergonha na cara de enviar.
Boa leitura.

Se ficou com inveja, é só pedir que a gente envia, mó prazer.


Assunto 2: Notícias Mentirosas? Ou Ruins?

Cepal: número de pobres na América Latina é o menor dos últimos 17 anos

Martha Beck - O Globo

BRASÍLIA - O crescimento econômico da América Latina permitiu que 15 milhões de pessoas saíssem da pobreza e 10 milhões deixassem de ser indigentes na região em 2006, segundo levantamento da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). O "Panorama Social da América Latina" estima que a região deve encerrar 2007 com uma população pobre de 190 milhões de pessoas, o número mais baixo dos últimos 17 anos.

Brasil, Argentina e Venezuela estão entre os países que registraram maiores avanços. Segundo a Cepal, no caso brasileiro, não apenas o crescimento, mas programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, foram determinantes. O país reduziu em 4,2 pontos percentuais tanto a pobreza quanto a indigência entre 2001 e 2006.


Os caras pálidas
Mas não é possível! Isso aqui é país de terceiro mundo. "O terceiro mundo vai explodir!"
"Quem tiver de sapato não sobra!" Como pode o nível de pobreza diminuir? E com um governo desses ainda por cima? Não pode ser, esses dados são manipulados, é o sistema!

Deixa eu adivinhar o que os rancorosos (o abominável homem das neves) e descrentes vão dizer: do que adianta nível de pobreza, se o povo continua passando fome, não tendo atendimento à saúde, emprego e nem habitação, saneamento básico?

É que a gente só gosta de notícias ruins. Falar das coisas boas não vende jornal.

12/11/2007

Assunto 1: a grande mentira.

Quando estava no colegial, no ensino fundamental e até no primário disseram que para ser alguma coisa na vida eu precisava estudar. Disseram também que estudando, sendo um profissional e, portanto, cursando uma universidade, eu teria emprego, certo?

Corta para uma cena do filme de Hector Dália, "O Cheiro do Ralo".

No balcão de um caixa de uma lachonete.

Selton Mello: ei, e a moça que trabalhava aqui?
Dono da lanchonete: não trabalha mais.
SM: Vc tem o telefone dela? - meio aflito.
DL: Não.
SM: Nem no registro, nada? - ainda mais aflito.
DL: Registro? Vc acha que eu sou burro de registrar alguém? Pagar direitos, férias etc. Nem fodendo.


Mentiram pra gente.

Daqui a pouco vou sair da faculdade e terei emprego garantido? Com salário, carteira assinada, férias e o caralho?

Tem um montão de colegas recém formados e vocês acham que estão trabalhando, carteira assinada e pá? Vai achando.

O Gilberto Dimenstain comenta, no texto "Como ganhar diploma de otário":

O que o mercado está dizendo claramente é que o jovem teria mais chance de ganhar um emprego se fizesse um curso técnico ou tecnológico. Fazer um curso superior pode significar, em muitos casos, apenas o diploma de otário.

Assunto 2: a melhor banda do mundo.


Eis que veio ao mundo a edição especial (de luxo companheros do jornal?) do segundo filme dos Beatles (que banda hoje faz filmes alá trapalhões?), o Help! É mano, é também o título de um disco deles de 1965.

E quem nunca ouviu a música-título não está nesse planeta.

O Help! serviu de base para os filmes que o Roberto Farias (o Richard Lester tupiniquim), realizou com o Roberto Carlos! Bizarro.

HELP! agora colorido, com edição dupla, teve lançamento mundial dia 5 de novembro. Pela bagatela de 80 reaus. Vai pagar quanto Tets?

Da Folha:

Lá fora, além da versão com os dois DVDs e livreto, há um box de luxo, com reprodução do roteiro anotado pelo diretor, cards, um cartaz e um livro de 60 páginas com fotos dos bastidores da produção. Nesse caso, o preço sobe de US$ 30 para US$ 135.

A capa do Help!
Lembra da capa do Help!? Aquela que tem os quatro Beatles cada um de um jeito, com os braços pra cima, pro lado, diagonal? Manja né? Então, eles tentaram escrever Help! numa língua X (que não sei qual é), mas ficou ruim visualmente. Aí, eles adaptaram e ficou assim:



-----------------------

"
Ajude-me,se você puder, eu me sinto pra baixo
e eu vou apreciar a sua luta na existência
ajude-me, coloque meus pés de volta no chão.
você não vai, por favor, ajudar-me?"


07/11/2007

O Cheiro da VULVA

Está em um site hospedado na Alemanha com o sugestivo nome de http://www.smellmeand.com, o mais novo produto da Vivaeros, empresa que se apresenta como criadora de produtos especiais: fragrância de vulva. É isso mesmo: fragrância de vulva, o que chamamos popularmente, aqui na Bahia, de xibiú, pitrica ou bocó-de-pelo.

Pois não é que um sujeito, um emprendedor alemão, garante ter sintetizado a fragrância da perseguida? Ele vende, em delicados frascos, o Vulva Original, que é como batizou seu produto.

Décio adorava comer. Transcendia um hobby. De muitas maneiras, muitos tipos e achava, ao contrário do que pensam os food-designs, que o essencial numa comida não era o visual, a cara da comida, mas o cheiro. Esse era o cara. Ele adorava saborear o cheiro antes de abrir a boca. Décio adorava comer xoxotas. Mas por causa do cheiro e nada mais. Nada mais.

E talvez por isso gostava de usar perfumes, cujas fragrâncias relacionavam-se com comidas. Uns oito vidros dispostos lado a lado: apenas essências de comidas e temperos.

Um belo dia enchuvarado a notícia da essência da vulva caiu nos seus ouvidos. Inacreditável. Um bem mundial desses, uma essência dos deuses deveria ser mais acessível. Contudo - pensava novamente - se esse era o preço para ter o perfume mais maravilhoso do mundo, então "que assim seja". Começou a fazer rasgadas economias. O objetivo logo estaria próximo.

Pausa para o lanche.
Meses de economias rasgadas depois, o sagrado frasco dos deuses chegou a sua residência. Era como um brinquedo novo de criança.
Já no quarto com as portas trancadas Décio desembalou o frasco e torceu a tampa. Aproximou o nariz e deu uma imensa fungada. Uma tremenda fungada. A imagem e a associação que lhe veio ao sentir aquele cheiro vaginal excêntrico e magnífico foi a lembrança das viagens de ácido, aquelas que libertavam o cérebro e faziam ver o mundo de uma maneira como nunca antes.

Em poucos dias estava viciado. Como uma droga. Sua vida era cheirar. Cheirando, cheirando, cheirando. O cheiro de vulva. Que delícia. Suas punhetas agora tinham cheiro. Maior tesão. Seu banho tinha mais perfume. Sua vida tinha literalmente, mais essência.

Mas, o fator cheiro começou a agravar-se. Sua sobrevivência resumia-se em aspirar o cheiro contido naqueles frascos. Todo o seu dinheiro e apenas um destino: vidros de Vulva Original, o perfume dos deuses. E eram tão demorados. Tinha que ter um esquema de sedex 10, que saco. O fato é que já pensava numa espécie de alcoólatras anônimos: o Vulvas Anônimos. Não tinha coragem para pedir ajuda. Ao invés disso, solicitava outros frascos. A coisa aumentou. Por onde andava carregava um paninho e o frasco. Era como se o oxigênio que respirava fosse agora O2-Vulva.

Como se não bastasse, gotas da essência funcionavam também como amaciantes para roupas, além de perfumarem a gaveta de roupas íntimas.

Sua vida era agora um imenso cheiro de Vulva. Sentia-se, contudo, bem, vivo. Mas não enxergava a dominação e a transformação que a Vulva fizera. Comia sua vida. Justo ela que tanto perfumava. E num piscar de olhos nem imaginou que terminaria como os seus heróis. Morreu de overdose. Overdose de Vulva Original.

Abriram a porta do banheiro, arrombaram-na. Um grito de horror, daqueles de filme de dar medo e a cena:

O corpo estendido ao lado da privada. Um braço sobre o peito, o outro aberto, semi-esticado e a mão espalmada. Os olhos abertos, arregalados, de desejo. E o mais estranho, um frasco vazio próximo, como se tivesse rolado de suas mãos e um bilhete com os dizeres:

“Descansem o meu leito solitário
Na cidade dos homens turva
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta - sonhou - e cheirou a vulva.”

*A notícia com a qual este texto baseou-se você lê na íntegra aqui.

06/11/2007

Bocó-de-pêlo em vidro de perfume

Está em um site hospedado na Alemanha com o sugestivo nome de http://www.smellmeand.com, o mais novo produto da Vivaeros, empresa que se apresenta como criadora de produtos especiais: fragrância de vulva. É isso mesmo: fragrância de vulva, o que chamamos popularmente, aqui na Bahia, de xibiú, pitrica ou bocó-de-pelo.

Pois não é que um sujeito, um emprendedor alemão, garante ter sintetizado a fragrância da perseguida? Ele vende, em delicados frascos, o Vulva Original, que é como batizou seu produto.

O Cheiro da VULVA

Décio adorava comer. Transcendia um hobby. De muitas maneiras, muitos tipos e achava, ao contrário do que pensam os food-designs, que o essencial numa comida não era o visual, a cara da comida, mas o cheiro. Esse era o cara. Ele adorava saborear o cheiro antes de abrir a boca. Décio adorava comer xoxotas. Mas por causa do cheiro e nada mais. Nada mais. Assim, seu prato predileto era "bacalhoada".

Também por isso gostava de usar perfumes, cujas fragrâncias relacionavam-se com comidas. Uns oito vidros dispostos lado a lado: apenas essências de comidas e temperos.

Um belo dia enchuvarado a notícia da essência da Vulva caiu nos seus ouvidos. Inacreditável. Um bem mundial desses, uma essência dos deuses deveria ser mais acessível. Contudo - pensava novamente - se esse era o preço para ter o perfume mais maravilhoso do mundo, então "que assim seja". Começou a fazer rasgadas economias. O objetivo logo estaria próximo.

Pausa para o lanche.
Meses de economias rasgadas depois, o sagrado frasco dos deuses chegou a sua residência. Era como um brinquedo novo de criança.
Já no quarto com as portas trancadas Décio desembalou o frasco e torceu a tampa. Aproximou o nariz e deu uma imensa fungada. Uma tremenda fungada. A imagem e a associação que lhe veio ao sentir aquele cheiro vaginal excêntrico e magnífico foi a lembrança das viagens de ácido, aquelas que libertavam o cérebro e faziam ver o mundo de uma maneira como nunca antes.

Em poucos dias estava viciado. Como uma droga. Sua vida era cheirar. Cheirando, cheirando, cheirando. O cheiro de Vulva. Que delícia. Suas punhetas agora tinham cheiro. Maior tesão. Seu banho tinha mais perfume. Sua vida tinha literalmente mais essência.

Mas, o fator cheiro começou a agravar-se. Sua sobrevivência resumia-se em aspirar o cheiro contido naqueles frascos. Todo o seu dinheiro e apenas um destino: vidros de Vulva Original, o perfume dos deuses. E eram tão demorados. Tinha que ter um esquema de sedex 10, que saco. O fato é que já pensava numa espécie de alcoólatras anônimos: o Vulvas Anônimos. Não tinha coragem para pedir ajuda. Ao invés disso, solicitava outros frascos. A coisa aumentou. Por onde andava carregava um paninho e o frasco. Era como se o oxigênio que respirava fosse agora O2-Vulva. Do jeitinho que dizia o comercial da Vulva: "breath and enjoy, anytime, anywhere".

Como se não bastasse, gotas da essência funcionavam também como amaciantes para roupas, além de perfumarem a gaveta de roupas íntimas.

Sua vida era agora um imenso cheiro de Vulva. Sentia-se, contudo, bem, vivo. Mas não enxergava a dominação e a transformação que a Vulva fizera. Comia sua vida. Justo ela que tanto perfumava. E num piscar de olhos nem imaginou que terminaria como os seus heróis. Morreu de overdose. Overdose de Vulva Original.

Abriram a porta do banheiro, arrombaram-na. Um grito de horror, daqueles de filme de dar medo e a cena:

O corpo estendido ao lado da privada. Um braço sobre o peito, o outro aberto, semi-esticado e a mão espalmada. Os olhos abertos, arregalados, de desejo. E o mais estranho, um frasco vazio próximo, como se tivesse rolado de suas mãos e um bilhete com os dizeres:


“Descansem o meu leito solitário
Na cidade dos homens turva
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta - sonhou - e cheirou a vulva.”

-------------------------------------------------------

*A notícia com a qual este texto baseou-se você lê na íntegra aqui.

Vídeo da VULVA.

video

02/11/2007

Por que ele veio ao mundo?

[Up Load]
Este blogue nasceu para ser a continuação deste outro. Contudo, com alguma nova proposta.

A idéia das prosas inspiradas em notícias jornalescas que ora e outra cá aparecerão, foi inspirada no texto "Paixão pelo Livro" do jornalista Moacyr Sciliar. Preferia linkar o texto aqui ao invés de postá-lo. Mas como nem todos são assinantes do jornal ou do uol, aqui vai.

Agradeço a Luma, que teve o cuidado de me enviar um email acerca da recuperação do antigo blogue.

Outras considerações fogem-me a cabeça neste momento.

Mas,
Notícias Mentirosas nasce para continuar as bravatas, afinal Rei Jude existe e o livro está sobre a mesa, não poderíamos nos calar. Também com a pretensão de debochar e ficcionar notícias jornalescas, pois jornal de ontem já virou passado e a vida vale muito mais.

Além claro, das coberturas, diários de bordo
, os discos e sons que a gente ouve e os comentários sobre o mundo e outros assuntos que aparecem na nossa cara. São tentativas de expressão, formar conteúdo, compartilhar e exercer jornalismo dentro dos ideais em que se acredita.

That´s all folks.

O segundo post de Notícias Mentirosas é já inspirado nesta idéia. Em breve. Agora, sem mais delongas.


A paixão pelo livro


Acho que ele não conhecia a minha frase, porque o livro de bronze foi um engano, não é mesmo, caro Drummond?

Livro que integra escultura de Drummond e Quintana é furtado em Porto Alegre. Um livro de bronze de três quilos que integra uma escultura em homenagem aos poetas Mário Quintana (1906-1994) e Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) exibida na praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, foi furtado. O crime ocorreu há cerca de duas semanas -a Polícia Civil não sabe a data exata. De autoria dos artistas Xico Stockinger e Eloísa Tregnago, a peça foi inaugurada em outubro de 2001, por encomenda da Câmara Riograndense do Livro. Os poetas são representados em tamanho real. O gaúcho Quintana está sentado e olhando para Drummond, que é representado em pé, com um livro pregado em uma de suas mãos. Foi este o pedaço de escultura levado. O quilo do bronze é vendido por cerca de R$ 5 em lojas e depósitos de sucata de Porto Alegre. Quem furtou o livro teve cuidado, tempo e habilidade para não danificar o restante da escultura: as mãos de Drummond permanecem intactas, sem sinais aparentes de que tenham sido forçadas. Cotidiano, 18 de outubro

- DESCULPE, DRUMMOND , tu sabes que eu sou meio distraído, como os poetas costumam ser, mas, por acaso, ontem, não tinhas um livro na mão?
- Tinha, Mário, tinha um livro na mão. Só que este livro foi roubado, Mário.
- Roubado, Drummond? Que coisa. Roubaram um livro da tua mão. E quem foi que roubou, Drummond?
- Não conheço a pessoa. Mas até que foi gentil. Não me machucou, não me agrediu. Simplesmente levou o livro e se foi.
- Quem sabe é um leitor teu, Drummond. Leitores, às vezes, fazem o possível e o impossível para obter as obras de seus autores preferidos. Claro, o cara podia ter esperado a Feira do Livro, que abre esta semana, mas vai ver tinha pressa em te ler e estava sem dinheiro.
- Pode ser, Mário. Mas acho que o nosso amigo terá uma decepção. O livro não tinha nada escrito. Era um livro de bronze.
- De bronze, Drummond? Que interessante. Tu sabes que uma vez quiseram me homenagear fazendo o meu busto em bronze. Eu disse que um engano em bronze era um engano eterno. Acho que o leitor não conhecia a minha frase, porque o livro de bronze foi para ele um engano, não é mesmo, caro Drummond?
- Não sei, Mário. Não sei. Você sabe que o quilo do bronze é vendido por cerca de R$ 5 em lojas e depósitos de sucata. Como este livro tinha 3 quilos, o nosso amigo vai faturar R$ 15. Tem muito livro que não chega a esse preço. Ou seja: se foi engano, pelo menos foi um engano lucrativo.
- Mas de qualquer maneira terá uma decepção. Se fosse um livro de verdade, ele, pelo menos, leria um poema teu. Aliás, Drummond, uma curiosidade: se tivessem te pedido um poema, um único poema, para o livro de bronze, qual seria?
- Não sei. Acho que faria algo inédito. Que tal este, Mário? "No meio do caminho tinha um livro de bronze/ tinha um livro de bronze no meio do caminho..."
- Muito bom, Drummond. E eu completaria: "Todos esses que aí estão/ atravancando o meu caminho/ eles passarão..."
- "Eu passarinho", Mário?
- É, Drummond. Eu, passarinho. Voando, voando. E levando comigo um livro de bronze.

----
Além disso, Notícias Mentirosas nasce para continuar as bravatas, afinal Rei Jude existe e o livro está sobre a mesa, não poderíamos calar. Também com a pretensão de debochar e ficcionar notícias jornalescas, pois jornal de ontem já virou passado e a vida vale muito mais. Além claro, das coisas que a gente gosta e os jabás milionários deste missivista.
That´s all folks.