17/06/2009

Bilhete eletrônico ao Mateus

Oi mano, e aí?

Ontem, tomando uma no bar da Rosa aqui em Bauru, eu e um amigo, que também admira o saldo da política externa do presidente Lula, iniciamos uma discussão com uma guria que tem 7 anos como professora de escola pública. Ela dá aula para crianças e é totalmente descrente com o governo, com a educação (mas isso nós também somos!) acha-o mais do mesmo, não concorda com os programas sociais, acredita que somos nós - que não estamos nem entre os ricos, nem entre os pobres - que paga por estes programas, como esse mais recente da casa própria, por exemplo. Também acha que o presidente só viaja e citou o caso "mensalão" que, num oportunismo mal caráter típico de oposições em geral, voltou a TV por meio de propaganda eleitoral. Eu a provoquei para que me dissesse do que exatamente se lembrava do caso. Ela lembrava apenas de nomes: Marcos Valério, Genuíno, Roberto Jefferson e "o cara ministro da Fazenda". Porém, não soube responder quem de fato, ao fim, havia sido julgado culpado no processo todo.

Nós dois, humildemente, tentamos destacar a política externa, de como era importante, dos negócios e de vários países com quem o Lula fechou negócio para o Brasil. E também saímos em defesa de alguns programas, ponderando algumas coisas claro, e para nós dois, que o Lula era o melhor governo que o País já teve em sua história, mas que isso não significava muito, pois esteve longe de ser coerente e longe de apresentar um caráter "mais revolucionário", por não tocar na questão de terras e tributação. Questionei em seguida, que outro governante poderia ter sido melhor; sua resposta: titubeou, pensou, pensou e, sem certeza, disse, "o JK!". Tudo começou por conta de um suposto voto em Dilma.

O saldo no fim não sei se houve, porque ela é do tipo de pessoa que não aceita discussões, sai falando alto e não revê posições. Chatice.

E hoje, aqui navegando via tuíter, a amiga Babi postou o link, seguida da mensagem "que absurdo", se referindo a reportagem da FSP sobre o "apoio" do presidente Lula ao Sarney.

Depois de ler, enxerga-se um pouco de exagero do título, já que o grosso da matéria aponta para outros caminhos. Porém, fiquei pensando, "logo o Sarney que mandou censurar blog brasileiro, por causa da campanha "xô Sarney", que a Alcinéia Cavalcanti abraçou e, por conta disso, após decisão judicial teve que fechá-lo (um zip.net). Assim, ela passou a abrigar seu blog no blogspot por ser um servidor "gringo".

A meu ver, e analisando o contexto de ausência de prestígio que o Senado carrega nos últimos tempos, o que o presidente fez foi apenas um comentário, não sei se apoio seja a melhor definição, por ponderar o histórico de vida do Sarney (que passa diversas vezes pela história da política nacional, inclusive a do Glauber Rocha) e, em seguida, sugere uma investigação. Todos sabem que a família do cara controla um conglomerado midiático que abriga afiliadas da rede Globo, rádio e jornais, mas não sei se isso vem ao caso aqui. E também do caráter elitista-monopolista de sua família no Maranhão e Amapá, é o tipo de situação que o presidente precisa dizer alguma coisa e, às vezes, acaba fazendo uma média. Mas algo me diz que esse cara, o Sarney, não é gente muito das boas...

Mas Mateus, queria saber, o que vc acha de tudo isso?
Não sei muito como analisar essa situação.
No mais, tudo na boa.

Grande abraço,
saudades,

gabriel.

5 comentários:

Mateus do Amaral disse...

Mano,

Paz e bem!

É curioso que, diante das ideias do senso comum em relação ao atual governo, a gente sempre defenda a gestão do Lula, apesar de todas as suas contradições. Talvez sejam justamente essas contradições que estão por trás de tudo o que este bilhete conta a respeito da sua conversa no Bar da Rosa. Acho que uma das maiores contradições de Lula tenha sido a sua opção por sustentar seu governo com alianças no Congresso, em vez de se apoiar nos movimentos sociais que o apoiaram e o legitimaram no poder. Isso fez com que o governo, para obter a necessária maioria no Congresso, se visse obrigado a fazer alianças com partidos oportunistas (para não dizer outras coisas) e com figuras políticas importantes mas muito suspeitas, como é o caso de Blairo Maggi, Reinhold Stephanes e o próprio coronel Sarney. Já os movimentos sociais brasileiros ficaram órfãos nesse "governo de acordos". Por exemplo, o MST e os movimentos sem-teto permanecem criminalizados; a agricultura familiar e as comunidades tradicionais têm suas terras seriamente ameaçadas pela invasão rural-imobiliária, fator que também passa por cima dos esforços pela preservação ambiental no Brasil, sem que haja garantias de que o governo e sua tão valorizada base no Congresso vão atuar em contrário; e, entre outras organizações da sociedade, a própria CUT perdeu parte de sua combatividade por conta de seu apoio incondicional ao governo diante do há muito profetizado ataque reacionário (mais do que esperado quando se trata de um governo de esquerda). A política externa do Lula fortalece a posição do Brasil e dos países pobres na mesa de negociações global, mas constitui outro paradoxo, considerando que, na "vanguarda" dessa postura autônoma e combativa do governo em relação ao comércio mundial, estão os interesses de latifundiários (produtores de soja e cana, em especial), de trasnacionais do ramo de alimentos e, de um modo geral, de toda essa gente da pior espécie, senhores de escravos e exploradores da pobreza, envolvida com a produção e exportação de commodities. Agora, não há dúvidas de que os programas sociais são mais efetivos que os anteriores (os próprios números sociais do Brasil não escondem que melhoramos e muito no período que estamos tratando), não há dúvidas de que a postura das relações exteriores (não só em relação ao equilíbrio entre os hemisférios norte e sul, mas também quanto aos esforços pela integração regional do Brasil com nossos hermanos e com os países pobres) merece ser valorizada, não há dúvidas de que a gestão do Estado enquanto ferramenta de incentivo à economia e de transferência de renda (os impostos que são "investidos" nas classes mais pobres da população) melhorou muito e derrubou a ideia infame de que o Estado não é necessário nem é bom para o país. Com a Petrobrás fortalecida, por exemplo (ao contrário do que fez FHC), temos agora a auto-suficiência da produção de petróleo, o pré-sal, recursos para investir na produção de energia em outros lugares do mundo e, de um modo especial, de energias alternativas. A gente sabe ou pressente todas as contradições desse governo esquisito; a gente queria uma reforma agrária; queria a expulsão da Monsanto, da Bayer, da Cargill; queria mais incentivo às pequenas e médias empresas (que são quem realmente empregam no país, e não as transnacionais); queria um governo contra transgênicos e defensor máximo da legislação ambiental (que nunca foi respeitada pelos "grandes"); queria, enfim, que a população tivesse mais voz nas decisões do governo. No entanto, numa conversa de bar com alguém que reproduz o que leu ou ouviu sobre o governo em jornalzinho subserviente, a gente defende esse governo. Acho que é como costuma dizer Luís Fernando Veríssimo: não falo mal do Lula por aí para não engrossar o caldo reacionário, que já é suficientemente grosso.

Um grande abraço, com fraternura.

Mari Amorim disse...

olá!
A música é a fotografia de nossa alma,
Adorei,também soltei o som.
Boas energias
Mari

Nely disse...

Passei duas vezes para conhecer sua musica e "cadê ela?".
Lhe deixo um beijo com perfume de Rosa e ...Arrepio na pele.

Luma disse...

Lullinha, que isso? Paz e amor!! Só o tempo dirá, assim como disse para os outros ex-presidentes brasileiros. Não é fácil ser ex-presidente no Brasil!! Beijus

Vanessa disse...

Olá, passei por aqui procurando o post da coletiva Solta o Som.

Abraço