10/08/2008

Para os meus pais

Há uma estória que diz que quando somos "encomendados" por algum casal aqui na terra, já sabemos quem serão nossos pais, pois escolhemos eles antes mesmo de ir parar na barriga.

Essa estória, aliás, é real, me lembro bem.
(O personagem olha pra o céu e surge uma imagem esbranquiçada, típica, que retrata algum fato no passado; é um lugar bucólico, céu limpo e grama verdinha, ovelinhas pastando, e tudo mais que nós crianças imaginamos):

- Gabriel, venha cá, é a sua vez de nascer. Você quer escolher quem serão os seus pais lá na terra?
E quem você escolhe?


Lá, nesse lugar bucólico, podemos ter uma visão da vida dos candidatos a serem nossos pais, para podermos escolher. As imagens aparecem num espelho d´água.
E então avistei-os de longe. E tive certeza de que queria estar com eles pra sempre.

Quando os vi pela primeira vez, mamãe e papai estavam num bar em São Paulo - cidade que escolheram para crescer na vida - ouvindo e dançando música, rock. Bebiam cervejas. Papai era mais discreto. Já mamãe falava bastante. Papai contava que queria montar algo, uma empresa talvez, mas precisaria de ajuda...

Mamãe estava linda naquela noite, seus olhos brilhavam e ela usava um vestido que salientava o bumbum. Papai trajava jeans, all star e uma camiseta meio surrada. Os cabelos eram longos , até perto do pescoço e brilhantes, pretos. Mamãe sabia que havia encontrado uma jóia rara: além de bonito, inteligente, tinha o coração-bom, como nenhum outro ser humano e sabia tudo sobre os Beatles e os Rolling Stones.

Nesse momento, explicava para mamãe que aquele som que acabavam de flambar no barzinho era send me a postcard. Mais tarde, na mesma semana, papai tentou explicar, mas achou melhor comprar logo o disco do Sá & Guarabira pra ela. Está lá até hoje.

Depois, o som cessou. O bar parecia manisfestar um desejo de fechar, era bem tarde. Não fecharia tão cedo, contudo. Um violão caiu nos braços de papai. Mamãe dizia também que, além de bonito, inteligente, coração-bom e de saber tudo sobre os Beatles e os Rolling Stones, ao pegar no violão, papai apavorava a ponto de todos os gays e todas as moças do lugar ficarem em volta, rodiando, polvorosas. Imagino que o leitor saiba bem como são essas simpáticas senhoritas.

Fora uma bela noite da lira paulistana. E nesta noite, foram-se embora a passos pouco apressados, abraçados, com o braço esquerdo de papai sobre o ombro esquerdo de mamãe que, vez ou outra, subia até a cabeça onde recebia cafunés esparsos. Chegaram em casa e foram direto para o quarto. Bom, e aqui estou...


Papai,
hoje é dia de celebrar. Celebrar a vida que foi possível existir. Celebrar as estorinhas que me contou, os domingos que me levou ao teatro (Cacilda Becker) e os doces que me deixou comprar no mercado. Celebrar aquele circo fajuto que me levou e os tiros de brincadeira que dei com você no parque de diversões. Celebrar o seu coração-bom como nenhum outro ser humano, que está de alguma maneira impregnado em mim. Celebrar o sorriso, o seu jeito cativante e o rock que você me ensinou a ouvir.
Papai eu te amo. Parabéns.

4 comentários:

silvia ferreira disse...

Nossa, meu. Que da hora! Que da hora! Amei!
Lembra que falei sobre a falta de coisas doces? Estou saciada.
bjo

Bruno Espinoza disse...

Que bonito, meu. Bonito mesmo.

Cara, convite: sábado (dia 16), eu e o Nenê vamos comemorar nosso aniversário no bar Filial, na Vila Madalena, a partir das 18:30, tomando chope e comendo bolinho de arroz melhor que o da vovó.
Tá convidado!

Dá um jeito aí, mas aparece.
Abraço.

Marjorie disse...

Lindo texto. Simples, inocente, doce.
Li e achei de novo que seu pai na história parece você conhecendo a futura mãe dos seus filhos.
Você deve ser mesmo muito parecido com seu pai. Por isso, tão especial.

Fiquei com saudades do meu.
Beijos!

Gabriele Fidalgo disse...

Adorei!!

Não teve como não me lembrar do meu pai. Não diria que ele sabe tudo de Rolling Stones, mas de Beatles e Simon and Garfunkel, ele sabe. :) Que ótimos exemplos de pai! rs