05/05/2009

Gato mia. Miau.


Não voltaria para casa tão cedo, era a única certeza naquele dia acinzentado, clamou aos amigos, dançaria a música que fosse, no inferninho que fosse, com quem quer que fosse, com ela seria melhor, com eles melhor ainda, se divertiria, risadas, passinhos que ninguém entendeu, festejos, convidaria até o garçom solícito e mal pago, igualzinho a todos; comtudo, não se precipite, é um erro proposital, uma tentativa ridícula de ambiguidade, beberia algumas várias pra não fugir ao comum, cumprimentaria os chegados, abraços, tapas, uma risada aberta, sincera para cada outro saudoso que aparecesse...

E, num dia como esses, veja só, ela, ela me apareceu num boteco falando de um livro, de páginas que haviam se transformado num longa de sucesso, que era incrível, eu não podia perder e vários outros ineditismos que as pessoas acrescem quando querem destacar, engrandecer algo que elas mesmas não depositam tanta fé. Mas logo veio aquele clichê barato, aqueles todos na verdade. Que um livro é sempre muito melhor, mais completo e blá-blá-blá-blá.

Dessa vez, porém, não tive coragem de tapar-lhe, apagar-lhe, calar-lhe por completo com a minha boca, poupando assim não apenas as minhas orelhas, mas sobretudo, como diria Rosenfeld, que ela se definhasse na minha frente. Continuou nessas, entre um e outro copo de cerveja. E se foi. Assim mesmo como se deixa voar uma sacola de plástico ao vento. Eu voei junto, imaginando o que poderia ter acontecido depois. Respira-aspira, respira-aspira, no meio de um momento que poderia ser o clímax de outra noite memorável, começou a invadir-me uma tremenda agonia: você olha para o lado e não enxerga conhecido algum para interagir com sua existência que se tornou medíocre neste instante. Olha, percebe as pessoas soltas, rindo à toa, a câmera girando por dentro das luzes coloridas imaginárias que se formaram na sua cabeça, então o equipamento dá um mergulho escancarando aquela sua agonia besta de não saber o que fazer com você mesmo. Mas, felizmente, para alívio da platéia e - não se poderia deixar por menos - para o bem estar do nosso personagem sem nome, a agonia que o tomava como uma matrix modificada desapareceu imediatamente, assim que a fome latiu. Finalmente.

Finalmente, porque o fim se aproxima, isso é triste mas. Este era o momento, seu plano desde as quatro da tarde: passar na feira ou naquele-restaurante-fast-food-que-vende-esfirra-baratinho-mas-que-eu-não-quero-falar-para-não-fazer-propaganda-de-uma-rede-alimentícia-exploradora-de-mão-de-obra-mal-paga-e-no-momento-seguinte-achar-isso-tudo-uma-tolice, seu cérebro supunha devorar dois ou três pastéis de queijo, pizza, frango com catupiri é melhor, esfirra é mais barato e.

Não passaram de planos recortados sob o alto de sua cabeça recostada ao travesseiro, como um gato que era, que adorava-idolatrava-salve-salve o vagar à noite, MIOU. Espreguiçou-se, fez pose magistral e se esticou por ali mesmo, sem maiores esforços.

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3 comentários:

silvia disse...

Muito legal. Como vc mesmo diria, foda! As vezes vc me surpreende de um jeito mais surpreendente que de outras vezes! hehehehe
Peguei ar, mas dessa vez foi suspiro de orgulho! hehehe
bjo, visita o Desmascarando q ele tá com saudade de vc! :)

Carolina Bataier disse...

gostei mto e isso me fez criar um lembrete mental: passar aqui mais vezes!

Carolina Bataier disse...

gostei mto e isso me fez criar um lembrete mental: passar aqui mais vezes!